No fim de 2025, a morte de um homem de 55 anos durante um treino de supino em uma academia de Olinda, em Pernambuco, voltou a colocar um tema técnico no centro das conversas de academia: a chamada “pegada suicida”. O caso, amplamente noticiado, reacendeu um debate que já existia há décadas entre praticantes de musculação e powerlifting, mas que costuma ficar restrito a quem treina cargas altas.
O nome é dramático, mas o risco por trás dele é real e explicável pela biomecânica básica de como uma barra se apoia nas mãos. Este artigo não existe para gerar pânico em quem treina supino todos os dias sem problema nenhum. Existe para explicar, com clareza, o que essa pegada muda fisicamente na execução do movimento, por que ela é proibida em competições oficiais de levantamento de peso, e em que situações o risco realmente aumenta.
O que é a “pegada suicida”
A pegada suicida, também chamada de false grip ou pegada aberta, acontece quando o polegar não envolve a barra junto com os outros dedos. Em vez de fechar a mão em volta do equipamento, o polegar fica do mesmo lado dos outros quatro dedos, deixando a barra apoiada apenas sobre a palma da mão.
Alguns praticantes adotam essa variação porque relatam mais conforto no punho e no cotovelo, já que ela costuma vir acompanhada de um leve ajuste na posição do braço em relação ao tronco. É uma sensação real, mas ela não muda o problema físico central: sem o polegar trancando a barra, não existe uma segunda força segurando o equipamento contra a gravidade.
A biomecânica por trás do risco
Na pegada fechada convencional, a barra fica presa dentro de um “anel” formado pelos dedos e pelo polegar. Esse fechamento cria um ponto de apoio estável, que resiste a pequenos deslizes, tremores musculares no fim de uma série ou uma leve perda de controle no momento de descer o peso até o peito.
Na pegada suicida, esse anel não existe. A barra fica equilibrada só sobre a palma, sustentada apenas pelo atrito entre a pele e o metal e pela força de preensão dos dedos que não são o polegar. Qualquer fator que reduza esse atrito, como suor nas mãos, uma variação mínima no ângulo do pulso, ou a fadiga muscular natural do fim de uma série pesada, pode ser suficiente para a barra escorregar. Como o supino é executado com a barra passando bem acima do tórax e, em alguns casos, próxima ao pescoço, uma queda descontrolada tem potencial para causar fraturas de costela, lesões internas graves ou, em casos extremos como o noticiado em Pernambuco, ser fatal.
Vale reforçar o tipo de evidência que sustenta essa explicação: não existem, e dificilmente vão existir, estudos experimentais randomizados testando o risco da pegada suicida, porque não seria ético expor pessoas de propósito a um risco de lesão grave só para medir a frequência de acidentes. O que existe é análise biomecânica de como a força é distribuída na mão, relatos e registros de casos de acidentes, e o consenso de federações e profissionais de treinamento de força construído ao longo de décadas observando esses acidentes. É um tipo de evidência mais parecido com o que sustenta regras de segurança em geral, como o uso de capacete, do que com um estudo clínico clássico, mas isso não o torna menos sólido.
Por que algumas pessoas defendem essa pegada
O argumento mais comum a favor da pegada suicida é o conforto articular. Ao tirar o polegar de trás da barra, alguns praticantes conseguem um alinhamento de punho que sentem como mais neutro, e relatam menos desconforto no ombro em pessoas com histórico de dor ou mobilidade reduzida nessa região.
Esse relato de conforto é real e não deve ser descartado, mas ele resolve um problema (desconforto articular) trocando por um risco de natureza completamente diferente e mais grave (queda descontrolada da barra). Quando existe desconforto genuíno no punho ou no ombro durante o supino, a rota mais segura é ajustar a largura da pegada, a técnica de descida da barra, ou avaliar mobilidade com um profissional, não remover o único ponto de segurança mecânica que a pegada fechada oferece.
O que dizem as federações e a comunidade de treino de força
A pegada aberta é proibida em competições oficiais de powerlifting pelas principais federações do esporte, justamente pelo risco de acidente que ela representa quando cargas próximas ao limite máximo do atleta estão em jogo. Esse tipo de regra não nasce de exagero regulatório: nasce de décadas observando acidentes em treinos e competições e decidindo, coletivamente, que o ganho de conforto não compensa o risco.
Organizações de referência em treinamento de força, como a National Strength and Conditioning Association (NSCA), recomendam a pegada fechada como padrão de segurança no supino, especialmente em cargas altas ou próximas ao limite do praticante, e reforçam o uso de apoio de segurança (pinos ou braços de segurança no rack) e de um parceiro de treino (spotter) para qualquer tentativa de carga máxima.
Cenários: quando o risco muda
O risco da pegada suicida não é fixo, ele muda de acordo com o contexto do treino:
- Carga baixa a moderada, com pouca fadiga acumulada: o risco existe, mas é menor, porque a chance de a barra escorregar por fadiga extrema é reduzida.
- Carga próxima ao máximo (perto de 1RM): é justamente o cenário de maior risco, porque a fadiga é mais alta, o tempo sob tensão na última repetição é maior, e uma eventual falha muscular chega de forma mais abrupta.
- Treino sozinho, sem spotter e sem os pinos de segurança do rack ajustados corretamente: qualquer risco da pegada suicida se multiplica, porque não existe nenhuma rede de segurança caso a barra escorregue.
- Mãos suadas ou barra sem magnésio: reduz diretamente o atrito que sustenta a pegada aberta, aumentando a chance de deslize.
Em nenhum desses cenários a pegada fechada convencional deixa de funcionar como deveria: ela mantém o mesmo nível de segurança básica independentemente da carga, da fadiga ou da presença de suor nas mãos, porque o travamento mecânico do polegar não depende de atrito.
Na prática
Se você treina supino regularmente, a recomendação mais simples e mais respaldada é usar a pegada fechada, com o polegar envolvendo a barra junto aos outros dedos, como padrão em qualquer série com carga moderada a alta.
Se você sente desconforto no punho ou no ombro com a pegada fechada, o caminho é ajustar a largura da pegada, revisar a técnica de descida e trajetória da barra, e conversar com um profissional de educação física ou fisioterapeuta sobre mobilidade, em vez de recorrer à pegada aberta como solução.
Sempre que for tentar uma carga próxima do seu limite, ajuste os pinos de segurança do rack para uma altura levemente abaixo do ponto mais baixo do movimento e, se possível, treine com um parceiro que possa auxiliar (spotter). Essas duas medidas reduzem o risco de acidente de forma muito mais eficaz do que qualquer ajuste de pegada.
Perguntas frequentes
A pegada suicida é proibida em todas as academias? Não existe uma proibição legal generalizada fora de competições oficiais de powerlifting, onde ela é vetada pelas regras técnicas. Em uma academia comum, a decisão de usá-la ou não é do praticante, mas os riscos biomecânicos existem independentemente do ambiente.
A pegada fechada machuca mais o punho? Não há evidência de que a pegada fechada, por si só, cause mais dor de punho do que a pegada aberta. Desconforto articular durante o supino costuma estar mais relacionado à largura da pegada e à mobilidade do ombro do que à posição do polegar.
Só quem levanta cargas muito altas corre risco? O risco é maior em cargas altas e próximas ao limite, mas qualquer situação com fadiga acumulada, mãos suadas ou ausência de apoio de segurança aumenta a chance de deslize, mesmo em cargas moderadas.
Uso spotter e pinos de segurança: ainda assim vale trocar de pegada? Mesmo com essas proteções, a pegada fechada continua sendo a opção mais segura como padrão, porque elimina o problema na origem em vez de depender de uma segunda camada de proteção para compensá-lo.
Glossário rápido
- Pegada suicida / false grip: pegada no supino em que o polegar não envolve a barra, deixando-a apoiada apenas na palma da mão.
- Pegada fechada: pegada convencional, em que o polegar envolve a barra junto aos outros dedos, formando um ponto de travamento mecânico.
- Rack de segurança / pinos de segurança: hastes ajustáveis do suporte de supino que impedem a barra de descer além de um ponto determinado, mesmo sem ajuda externa.
- Spotter: parceiro de treino posicionado para auxiliar caso o praticante não consiga completar o movimento com segurança.
Referências
- CartaCapital. “Pegada suicida: entenda os riscos do treino de supino inadequado” (2025).
- ND Mais. “Pegada suicida no supino: entenda os riscos de técnica que matou homem em academia” (2025).
- Regras técnicas de federações de powerlifting sobre proibição da pegada aberta (false/thumbless grip) em competição.
- National Strength and Conditioning Association (NSCA), diretrizes gerais de segurança em treinamento resistido com barra.
Por Hallen Lopes

