Caneta emagrecedora é atalho?

Quando alguém conta que começou a usar uma caneta como semaglutida ou tirzepatida para tratar obesidade, é comum ouvir: "isso é atalho", "é só fechar a boca", "é falta de força de vontade". Ao mesmo tempo, as mesmas canetas viraram moda entre pessoas sem obesidade que querem perder alguns quilos para o verão. As duas situações são tratadas como se fossem a mesma coisa, e não são.

No Brasil, a obesidade atinge cerca de 25,7% dos adultos nas capitais, segundo o Vigitel, mais que o dobro de 2006 (11,8%). Entender o que a ciência diz sobre a obesidade como doença, sobre o que dieta e exercício conseguem (e não conseguem) fazer sozinhos, e sobre o papel real das canetas é essencial para combater tanto o preconceito quanto o uso banalizado.

Obesidade é doença ou escolha?

Organizações médicas no mundo todo classificam a obesidade como uma doença crônica. Em janeiro de 2025, uma comissão internacional publicada na The Lancet Diabetes & Endocrinology, liderada pelo cirurgião Francesco Rubino e com dezenas de especialistas, propôs refinar esse diagnóstico. A comissão separou a "obesidade clínica", quando o excesso de gordura já causa disfunção em órgãos ou limita atividades do dia a dia, da "obesidade pré-clínica", em que há excesso de gordura com órgãos ainda funcionando normalmente, mas com risco aumentado no futuro.

Essa distinção é importante porque mostra que o IMC, sozinho, não basta para dizer quem está doente. E reforça que, quando há obesidade clínica, estamos falando de uma doença com consequências reais, diabetes, pressão alta, apneia do sono, dor articular, doença hepática, e não de uma questão estética.

O peso não é só "força de vontade": a biologia por trás

Genética

Estudos com gêmeos estimam que a herdabilidade do IMC é alta, em uma revisão publicada em 2012 na Frontiers in Endocrinology (Elks e colegas), as estimativas variaram de cerca de 47% a 90%. Isso não significa que o peso seja "destino", mas que pessoas diferentes respondem de formas muito diferentes ao mesmo ambiente: a mesma oferta de comida ultraprocessada e o mesmo sedentarismo afetam uns muito mais do que outros.

O corpo defende o peso perdido

Um estudo publicado no New England Journal of Medicine em 2011 (Sumithran e colegas) acompanhou pessoas com obesidade após uma dieta de baixíssimas calorias. Mais de um ano depois, os hormônios que regulam a fome ainda estavam alterados no sentido de aumentar o apetite, mais grelina (hormônio da fome), menos leptina e menos hormônios de saciedade, e os participantes relatavam mais fome do que antes da dieta.

Outro estudo, publicado na revista Obesity em 2016 (Fothergill e colegas), acompanhou 14 participantes de um reality show de emagrecimento. Seis anos depois, a maioria havia recuperado boa parte do peso, e o metabolismo de repouso continuava, em média, cerca de 500 kcal por dia abaixo do esperado para o tamanho corporal deles. É uma amostra pequena e um contexto extremo, mas ilustra um fenômeno bem documentado: a adaptação metabólica.

Em resumo: depois de perder peso, o corpo passa a ter mais fome e gastar um pouco menos. Manter o peso perdido exige lutar contra essa biologia todos os dias, o que ajuda a explicar por que "fechar a boca" funciona tão mal a longo prazo para a maioria das pessoas com obesidade.

O que dieta e exercício conseguem sozinhos

Mudança de estilo de vida é a base de qualquer tratamento e traz benefícios de saúde mesmo sem grande perda de peso. Mas, em números, os resultados médios de programas estruturados de dieta e atividade física costumam ficar entre 5% e 10% do peso corporal, com tendência de reganho ao longo dos anos.

Um bom exemplo vem dos próprios estudos das canetas. No STEP 1 (New England Journal of Medicine, 2021), com 1.961 adultos, o grupo placebo recebeu acompanhamento de estilo de vida com dieta e exercício por 68 semanas e perdeu, em média, 2,4% do peso. No SURMOUNT-1 (NEJM, 2022), com 2.539 adultos, o grupo placebo com aconselhamento de estilo de vida perdeu 3,1% em 72 semanas.

Isso não quer dizer que dieta e exercício não funcionem, eles funcionam, especialmente para saúde metabólica, força, condicionamento e qualidade de vida. Quer dizer que, para muitas pessoas com obesidade, eles sozinhos não são suficientes para uma perda de peso grande e sustentada.

O que as canetas mostraram

  • Semaglutida 2,4 mg (STEP 1): perda média de 14,9% do peso em 68 semanas, contra 2,4% no placebo.
  • Tirzepatida 15 mg (SURMOUNT-1): perda média de 20,9% em 72 semanas, contra 3,1% no placebo.
  • Desfechos de saúde (SELECT): em 17.604 pessoas com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular, a semaglutida reduziu em cerca de 20% o risco de infarto, AVC e morte cardiovascular (NEJM, 2023).

Por que funcionam? Essas medicações agem nos mesmos circuitos cerebrais que a biologia da obesidade "desregula": aumentam a saciedade, reduzem a fome e o desejo por comida, e ajudam a contrabalançar o aumento de apetite que vem com a perda de peso. Nesse sentido, elas não são um atalho, elas tratam justamente o mecanismo que torna o emagrecimento tão difícil de sustentar.

Mas caneta não é cura: os limites

O peso volta ao parar

Na extensão do STEP 1 (Wilding e colegas, 2022), um ano após suspender a semaglutida, os participantes recuperaram cerca de dois terços do peso perdido, e os ganhos metabólicos também regrediram. Isso mostra que, como em outras doenças crônicas (pressão alta, diabetes), o efeito depende de tratamento contínuo, ou de uma estratégia bem planejada para manter os resultados.

Perda de massa muscular

Parte do peso perdido é massa magra. Sem treino de força e proteína adequada, a pessoa pode emagrecer e perder força e função, algo especialmente preocupante em idosos.

Efeitos colaterais e custo

Efeitos gastrointestinais são comuns, e há riscos menos frequentes, como problemas de vesícula. O custo ainda é uma barreira: reportagens indicam que muitas pessoas abandonam o tratamento por motivos financeiros, o que alimenta o mercado ilegal, com todos os riscos de produtos falsificados.

Comparando cenários

Pessoa com obesidade clínica (com doenças associadas)

É o público em que os estudos mostraram mais benefício, inclusive em desfechos de saúde. Aqui, a caneta é tratamento médico legítimo, ao lado de alimentação, atividade física e acompanhamento.

Pessoa com obesidade pré-clínica

O foco é prevenir a progressão. A decisão de usar medicação deve considerar riscos individuais, histórico familiar e preferências, sempre com avaliação médica.

Pessoa sem obesidade, querendo perder poucos quilos

Os estudos foram feitos com pessoas com IMC a partir de 27 (com doenças associadas) ou 30. Para quem está fora disso, os benefícios de saúde são pequenos e há pouquíssimos dados, mas os efeitos colaterais, a perda de músculo e o reganho continuam valendo. É aqui que o uso banalizado preocupa.

Na prática

  • Obesidade não é falta de caráter. Julgar quem trata a doença com medicação aprovada não ajuda ninguém.
  • Caneta não substitui hábitos: treino de força, proteína adequada, sono e alimentação de qualidade continuam sendo a base.
  • Use apenas medicamentos registrados na Anvisa, com receita e acompanhamento médico.
  • Planeje o longo prazo com seu médico: duração do tratamento, como e se vai reduzir a dose, e como manter os resultados.
  • Se você não tem obesidade, pense duas vezes antes de usar a caneta por estética: o balanço entre benefício e risco é muito menos favorável.

Perguntas frequentes

Usar caneta para obesidade é "trapacear"?

Não. A obesidade é reconhecida como doença crônica com forte componente biológico. Tratá-la com medicação aprovada, sob acompanhamento, é tão legítimo quanto tratar pressão alta com remédio.

Preciso usar a caneta para sempre?

Não há regra única, mas os estudos mostram que boa parte do peso volta após a suspensão. A duração e a forma de parar devem ser planejadas com o médico.

Quem pode usar caneta para emagrecer?

As indicações aprovadas costumam incluir adultos com IMC a partir de 30, ou a partir de 27 com doenças associadas ao peso. A decisão é sempre médica e individual.

Se eu fizer dieta e exercício, preciso da caneta?

Muitas pessoas conseguem bons resultados só com mudanças de estilo de vida. Para outras, especialmente com obesidade mais grave, a biologia dificulta muito a perda sustentada, e a medicação pode ser necessária.

A caneta faz perder músculo?

Parte do peso perdido pode ser massa magra. Treino de força e ingestão adequada de proteína são as melhores estratégias para reduzir esse efeito.

Glossário rápido

Obesidade clínica: obesidade que já causa disfunção de órgãos ou limita atividades diárias.

Obesidade pré-clínica: excesso de gordura sem disfunção de órgãos no momento, mas com risco aumentado.

Herdabilidade: quanto da variação de uma característica em uma população é explicada por fatores genéticos.

Adaptação metabólica: redução do gasto de energia além do esperado após perda de peso.

Grelina e leptina: hormônios que sinalizam fome (grelina) e reserva de energia/saciedade (leptina).

Referências

  1. Rubino F, et al. Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2025. https://www.thelancet.com/journals/landia/article/PIIS2213-8587(24)00316-4/fulltext
  2. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil, dados de obesidade e excesso de peso, divulgados em 2026. https://www.cnnbrasil.com.br/saude/obesidade-cresce-118-no-brasil-segundo-ministerio-da-saude/
  3. Elks CE, et al. Variability in the heritability of body mass index: a systematic review and meta-regression. Frontiers in Endocrinology, 2012.
  4. Sumithran P, et al. Long-term persistence of hormonal adaptations to weight loss. New England Journal of Medicine, 2011.
  5. Fothergill E, et al. Persistent metabolic adaptation 6 years after "The Biggest Loser" competition. Obesity, 2016.
  6. Wilding JPH, et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity (STEP 1). New England Journal of Medicine, 2021.
  7. Jastreboff AM, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity (SURMOUNT-1). New England Journal of Medicine, 2022.
  8. Lincoff AM, et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes (SELECT). New England Journal of Medicine, 2023.
  9. Wilding JPH, et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2022. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9542252/

Por Hallen Lopes