Ozempic, Wegovy, Mounjaro. Os medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 (e o mais recente, tirzepatida, que age em dois receptores) viraram o fenômeno de emagrecimento mais comentado dos últimos anos. A promessa é sedutora: menos fome, menos vontade de comer, e o ponteiro da balança caindo semana após semana. O que a maioria dos usuários não sabe, e a maior parte da publicidade não menciona, é que nem tudo que sai na balança é gordura.
Estudos que acompanharam a composição corporal de quem usa essas medicações, medindo especificamente quanto do peso perdido é gordura e quanto é massa magra (músculo, principalmente), mostram um número que deveria fazer parte de qualquer decisão sobre usar ou não esses remédios: uma fatia relevante do peso perdido é músculo, não gordura. Este artigo explica o que os estudos mostram sobre esse número, por que isso acontece, e o que a ciência já sabe sobre como reduzir esse efeito colateral.
O que os estudos mostram
Uma revisão publicada em 2024 na revista Diabetes, Obesity and Metabolism, de autoria de Neeland e colaboradores, reuniu os dados de composição corporal dos principais estudos clínicos dessas medicações. No estudo STEP-1, o grande ensaio clínico que testou semaglutida (a substância do Ozempic e do Wegovy), os participantes perderam em média 15,3 kg, e desse total, 6,92 kg eram massa magra. Isso significa que 45,2% de todo o peso perdido no estudo era massa magra, não gordura.
No estudo SURMOUNT-1, que testou tirzepatida (a substância do Mounjaro e do Zepbound), os participantes perderam em média 22,1 kg, dos quais 5,67 kg eram massa magra, o equivalente a 25,7% do peso perdido. Um estudo publicado em 2025 na mesma revista, analisando os dados do SURMOUNT-1 em mais detalhe, também encontrou que, tanto no grupo que usou o medicamento quanto no grupo placebo (que emagreceu bem menos, mas emagreceu), a proporção do peso perdido que era massa magra ficou perto de 25%. Isso é um dado importante: sugere que perder um pedaço relevante de massa magra não é um efeito exclusivo do remédio, é algo que acontece em praticamente qualquer emagrecimento expressivo quando a pessoa não faz nada para preservar o músculo.
Uma análise de dados do mundo real, de uma coorte publicada em 2026, comparando diretamente quem usa tirzepatida com quem usa semaglutida, encontrou perdas de massa magra proporcionalmente maiores com a tirzepatida em todos os períodos observados (3, 6, 9 e 12 meses de tratamento). Esse mesmo estudo descreveu um padrão chamado de “metabótipo depletivo”, pessoas que perderam mais de 20% do peso corporal total e, dentro disso, mais de 5% de massa magra, que apareceu em 10,3% dos usuários de tirzepatida contra 6,7% dos usuários de semaglutida.
Por que isso acontece: o mecanismo
Esses medicamentos reduzem drasticamente o apetite e a ingestão calórica. Esse é justamente o motivo do emagrecimento, e também o motivo da perda de massa magra: qualquer déficit calórico grande e mantido por muitos meses, seja por remédio, por dieta restritiva ou por cirurgia bariátrica, tende a fazer o corpo perder não só gordura, mas também uma parte de massa magra, principalmente quando a ingestão de proteína cai junto com a comida em geral e quando não existe um estímulo de treino de força para “avisar” o corpo que aquele músculo ainda é necessário.
Em outras palavras, o problema não é o GLP-1 em si atacando o músculo de forma direta, é a combinação de comer pouco, muitas vezes comer pouca proteína dentro desse pouco, e não treinar força, que é exatamente o cenário mais comum de quem começa a usar esses remédios sem orientação e sem mudar a rotina de exercício.
O papel do treino de força
A boa notícia da literatura científica é que esse efeito não é inevitável. Existe uma linha de pesquisa consistente, ainda que não especificamente feita com usuários de GLP-1 em todos os casos, mostrando que treino de força combinado com ingestão adequada de proteína reduz de forma expressiva a perda de massa magra durante qualquer processo de emagrecimento com déficit calórico relevante.
Especificamente para usuários de GLP-1, o estudo LEAN-PREP, um ensaio clínico randomizado cujo protocolo foi publicado em 2025, foi desenhado exatamente para testar se treino de força e proteína adequada preservam massa magra em quem usa semaglutida ou tirzepatida. É importante deixar claro que este é um protocolo de estudo, os resultados ainda não foram publicados no momento da escrita deste artigo. Outro estudo em andamento, o FLEX, na Universidade de Exeter, está testando um programa de treino de força progressivo especificamente em mulheres em tratamento com tirzepatida.
Ou seja: a recomendação de treinar força para preservar músculo durante o uso de GLP-1 tem uma base fisiológica sólida (o mesmo princípio que vale para qualquer emagrecimento), mas os testes desenhados especificamente para essa combinação (GLP-1 mais treino de força) ainda estão em andamento. A Sociedade Americana de Medicina do Esporte (ACSM) já recomenda, com base no que se sabe hoje, que pacientes em uso de agonistas de GLP-1 façam treino de força para os principais grupos musculares, com 8 a 12 repetições por série, pelo menos duas vezes por semana em dias não consecutivos.
Comparando cenários
O risco de perda de massa magra não é igual para todo mundo:
- Quem usa o remédio sem treinar força e com baixa ingestão de proteína: é o cenário de maior risco, e onde os números de 25% a 45% de massa magra no total perdido se aplicam mais diretamente.
- Quem já treina força regularmente e mantém proteína adequada enquanto usa o medicamento: a expectativa fisiológica é de perda de massa magra bem menor, embora faltem ainda resultados de estudos randomizados desenhados especificamente para essa combinação.
- Pessoas mais velhas ou com massa muscular já reduzida (sarcopenia) antes de começar o tratamento: o risco relativo é maior, porque a margem de músculo “disponível” para perder é menor e as consequências funcionais de perder ainda mais são mais sérias.
- Perda de peso rápida e agressiva versus perda mais gradual: perdas de peso muito rápidas tendem a associar-se a perdas proporcionalmente maiores de massa magra, um padrão já bem descrito em dietas restritivas de forma geral, não é exclusivo do GLP-1.
O que ainda é incerto
- Ainda não existe um resultado publicado de ensaio clínico randomizado testando diretamente se treino de força reduz a perda de massa magra especificamente em usuários de GLP-1 (o LEAN-PREP e o FLEX, citados acima, ainda estão em andamento).
- Não está claro se a diferença encontrada entre tirzepatida e semaglutida em estudos observacionais se confirma em comparações diretas e controladas, já que dados do mundo real têm mais variáveis não controladas do que ensaios clínicos.
- O efeito em pessoas com obesidade e sarcopenia prévia, ou em idosos, ainda é pouco estudado especificamente com essas medicações mais recentes.
Na prática
Se você usa ou pretende usar um agonista de GLP-1: priorize treino de força para os principais grupos musculares pelo menos duas vezes por semana, e proteína suficiente na dieta (geralmente citada entre 1,2 e 1,6 g por kg de peso corporal por dia em contextos de emagrecimento, mas vale confirmar a meta individual com um nutricionista, já que isso pode variar conforme o quadro de cada pessoa).
Não interprete “perder peso rápido” como sinônimo de “sucesso total”. Uma perda de peso mais gradual, dentro do que o protocolo médico permitir, tende a preservar proporcionalmente mais massa magra do que uma perda muito acelerada.
Acompanhamento com exames de composição corporal (bioimpedância ou, idealmente, densitometria/DXA), quando disponível, ajuda a monitorar se a perda está vindo principalmente de gordura ou se a massa magra está caindo mais do que o esperado, permitindo ajustar treino e dieta a tempo.
Perguntas frequentes
Ozempic e Mounjaro fazem a pessoa perder músculo mesmo se ela não treinar?
Os estudos mostram que sim, em graus variados: entre 25,7% (tirzepatida, no SURMOUNT-1) e 45,2% (semaglutida, no STEP-1) do peso total perdido nesses estudos era massa magra. Treino de força e proteína adequada, mesmo sem confirmação em estudo específico para essa combinação, têm respaldo fisiológico forte para reduzir essa perda.
Tirzepatida (Mounjaro) causa mais perda de músculo que semaglutida (Ozempic)?
Dados de mundo real de 2026 indicam perdas proporcionalmente maiores de massa magra com tirzepatida em todos os períodos observados no primeiro ano de tratamento, mas isso vem de dados observacionais, não de um ensaio clínico direto comparando as duas substâncias para esse desfecho específico.
Preciso parar de usar o medicamento se estou perdendo massa magra?
Essa decisão é médica e individual, este artigo não substitui acompanhamento profissional. O que a ciência sugere é que treino de força e proteína adequada, junto ao uso do medicamento, ajudam a mitigar a perda, não que o uso do remédio deva necessariamente ser interrompido.
Só treino de força já resolve o problema?
A expectativa fisiológica, baseada em como o corpo responde ao treino de força durante qualquer déficit calórico, é positiva, mas ainda faltam resultados de estudos randomizados feitos especificamente com usuários de GLP-1 para confirmar o tamanho exato desse benefício.
Glossário rápido
- Agonista de GLP-1: classe de medicamentos que imita o hormônio GLP-1, reduzindo o apetite e a velocidade de esvaziamento do estômago, usada originalmente para diabetes e hoje também para emagrecimento.
- Massa magra: todo o peso corporal que não é gordura, incluindo músculo, água, ossos e órgãos, na prática, a maior parte da variação de massa magra durante emagrecimento vem do músculo.
- DXA (densitometria): exame de imagem considerado padrão-ouro para medir com precisão a proporção de gordura, músculo e osso no corpo.
- Déficit calórico: situação em que a pessoa consome menos calorias do que gasta, o que provoca perda de peso ao longo do tempo.
- Sarcopenia: perda de massa e função muscular relacionada à idade ou a outras condições, que reduz força e capacidade funcional.
Referências
- Neeland, I.J. et al. “Changes in lean body mass with glucagon-like peptide-1-based therapies and mitigation strategies.” Diabetes, Obesity and Metabolism, 2024.
- Look, M. et al. “Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight.” Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025.
- Protocolo do estudo LEAN-PREP (LEAN mass Preservation with Resistance Exercise and Protein during semaglutide and tirzepatide therapy), ensaio clínico randomizado registrado, resultados ainda não publicados.
- Análise de coorte de mundo real (digital phenotyping), comparando perda de massa magra entre tirzepatida e semaglutida, medRxiv, 2026.
- Recomendações do American College of Sports Medicine (ACSM) para treino de força em pacientes em uso de agonistas de GLP-1.
Por Hallen Lopes

