Proteína em excesso faz mal para o rim? O que os estudos mostram

“Proteína em excesso sobrecarrega o rim.” Essa frase circula há décadas em academias, consultórios e redes sociais, quase sempre acompanhada de um conselho: quem treina forte deveria ter cuidado com a quantidade de frango, ovo e whey que come, porque isso forçaria o rim a trabalhar mais do que deveria. O problema é que essa ideia mistura duas situações bem diferentes: o que acontece no rim de uma pessoa saudável quando ela aumenta a proteína, e o que acontece no rim de alguém que já tem doença renal. Tratar as duas como se fossem uma coisa só é o tipo de simplificação que gera medo sem necessariamente proteger ninguém. Vale entender a fundo o que a ciência mostra, porque um “depende” jogado sem explicação não ajuda quem está tentando decidir o que comer.

De onde vem esse medo

A lógica por trás do mito não é absurda à primeira vista: o rim é o órgão responsável por filtrar e excretar a ureia, um resíduo nitrogenado gerado quando o corpo metaboliza proteínas. Mais proteína ingerida significa mais ureia para excretar, então parece razoável imaginar que isso sobrecarregue o rim ao longo do tempo. Essa hipótese ganhou força a partir de observações feitas em pacientes que já tinham doença renal, nos anos 1980, e foi generalizada para a população saudável sem que houvesse, na época, estudos que testassem isso diretamente em gente sem doença renal. Nas últimas duas décadas, esse teste direto foi feito, e é isso que vale a pena olhar com calma.

O que os estudos mostram em pessoas saudáveis

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada no Journal of Nutrition em 2018, conduzida por Devries e colaboradores, reuniu ensaios clínicos randomizados que compararam dietas com proteína mais alta contra dietas com proteína normal ou mais baixa, medindo a função renal (taxa de filtração glomerular, ou TFG) antes e depois da intervenção em adultos saudáveis. A conclusão central foi que a mudança na TFG ao longo do tempo não foi diferente entre os grupos de proteína alta e os grupos de proteína normal ou baixa. Ou seja, quando o desfecho analisado é a variação real da função renal, e não só um número isolado no fim do estudo, a proteína alta não piorou a função renal desse grupo de adultos saudáveis.

Outra revisão sistemática, publicada também em 2018, analisou 26 estudos (entre ensaios clínicos e estudos observacionais) com adultos saudáveis vivendo em condições normais, alguns com fatores de risco metabólico, comparando ingestão de proteína dentro da recomendação americana (RDA, cerca de 0,8 g/kg/dia) contra ingestões mais altas (acima de 20% das calorias diárias, ou pelo menos 10% a mais que o grupo de comparação). O achado foi que a proteína acima da RDA teve pouco ou nenhum efeito sobre marcadores sanguíneos de função renal, e nenhum efeito adverso sobre a pressão arterial.

É importante ser honesto sobre o limite dessas evidências: a maioria dos estudos incluídos durou semanas a poucos meses, testando ingestões de até aproximadamente 2 a 3,1 g de proteína por kg de peso corporal por dia. Estudos controlados de muitos anos ou décadas, testando ingestões extremamente altas de forma contínua, são escassos, por serem caros e difíceis de manter. Então a certeza científica é maior para o curto e médio prazo, dentro das faixas realistas de dieta esportiva, do que para décadas de ingestão muito acima disso. Isso não é a mesma coisa que “não se sabe nada”, mas é diferente de dizer que o assunto está encerrado para todo e qualquer cenário possível.

O mecanismo: por que a filtração do rim aumenta (e por que isso não é dano)

Quando a ingestão de proteína aumenta, o rim de fato passa a filtrar mais sangue por minuto, um fenômeno chamado hiperfiltração induzida por proteína. O mecanismo proposto envolve o chamado feedback tubuloglomerular: os aminoácidos filtrados pelo rim são reabsorvidos no túbulo proximal do néfron, e essa reabsorção é dependente de sódio. Ao reabsorver mais sódio junto com os aminoácidos, chega menos cloreto de sódio até uma região do néfron chamada mácula densa, e esse sinal de “menos sódio chegando” faz o rim aumentar a taxa de filtração glomerular para compensar, de forma parecida com o ajuste que o corpo faz quando você bebe mais água ou muda a quantidade de sal na dieta.

O ponto central é que essa hiperfiltração é uma resposta adaptativa dentro da capacidade funcional de um rim saudável, não uma lesão em andamento. Ela é diferente da hiperfiltração patológica observada, por exemplo, nos estágios iniciais da doença renal do diabetes, que ocorre num rim que já tem alguma disfunção estrutural e que, nesse contexto, está associada a dano progressivo. Nos estudos com pessoas saudáveis citados acima, o aumento da TFG voltou a se estabilizar dentro da faixa considerada normal, sem sinais de progressão para disfunção.

Quem precisa se preocupar de verdade: doença renal já existente

A recomendação de cautela com proteína existe, mas ela é para quem já tem doença renal crônica (DRC) diagnosticada, não para prevenção em quem tem os rins saudáveis. As diretrizes da KDOQI (2020) recomendam restrição proteica para pacientes com DRC nos estágios 3 a 5 que estejam metabolicamente estáveis: entre 0,55 e 0,60 g de proteína por kg de peso ao dia para não diabéticos, podendo chegar a 0,28 a 0,43 g/kg/dia com suplementação de aminoácidos essenciais ou cetoanálogos em casos mais avançados, e entre 0,6 e 0,8 g/kg/dia para pacientes diabéticos com DRC. A atualização de 2024 das diretrizes KDIGO reforça essa cautela, recomendando evitar ingestão acima de 1,3 g/kg/dia para adultos com DRC em risco de progressão da doença.

O motivo fisiológico é praticamente o oposto do que acontece num rim saudável: numa DRC já instalada, o número de néfrons funcionando é menor, e os néfrons remanescentes já estão hiperfiltrando para compensar essa perda. Adicionar mais carga proteica nessa situação tende a acelerar a hiperfiltração nos néfrons que sobraram, contribuindo para fibrose e progressão mais rápida da perda de função renal. É essa lógica, testada em quem já tem a doença, que foi generalizada por engano para quem nunca teve nenhum problema renal.

E os idosos?

Uma revisão sistemática de 2024, publicada na Nutrition Reviews, avaliou estudos sobre ingestão de proteína e função renal em idosos vivendo na comunidade (fora de instituições de longa permanência). Em 5 dos 6 estudos incluídos, não houve associação estatisticamente significativa entre a quantidade de proteína consumida e a função renal, tanto em idosos com função renal normal quanto em quem já tinha DRC não dialítica; um dos estudos encontrou que maior ingestão de proteína vegetal estava associada a um declínio mais lento da TFG. A conclusão dos autores foi que a evidência ainda é insuficiente para afirmar que a ingestão de proteína piora a função renal a longo prazo nessa população.

Ao mesmo tempo, idosos costumam precisar de mais proteína por quilo de peso corporal do que adultos jovens, para compensar a chamada resistência anabólica relacionada à idade (a menor eficiência do corpo em usar proteína para manter massa muscular) e reduzir o risco de sarcopenia, a perda progressiva de massa e força muscular associada ao envelhecimento. Nesse grupo, o medo infundado de que proteína “faz mal pro rim” pode levar à ingestão insuficiente, que na prática é um problema bem mais comum e mais bem documentado do que o suposto dano renal.

Quanto é “excesso” na prática?

O posicionamento oficial de 2017 da International Society of Sports Nutrition (ISSN) sobre proteína e exercício recomenda entre 1,4 e 2,0 g de proteína por kg de peso corporal ao dia para a maioria de quem treina, visando ganho ou manutenção de massa magra. Em fases de déficit calórico, atletas treinados podem se beneficiar de ingestões mais altas, entre 2,3 e 3,1 g/kg/dia, para preservar massa magra durante a perda de peso, com alguma evidência de benefício na composição corporal mesmo acima de 3,0 g/kg/dia em pessoas treinadas. Essas faixas coincidem, na prática, com as quantidades testadas nos estudos de segurança renal citados mais acima. Em outras palavras, o “excesso” que costuma preocupar quem treina, como comer bastante frango, ovo e whey ao longo do dia, geralmente cai dentro ou perto da faixa que já foi estudada e não mostrou dano renal em pessoas saudáveis.

Comparando cenários diferentes

  • Pessoa saudável, sem diagnóstico de doença renal: a proteína alta gera hiperfiltração adaptativa, sem evidência de dano mesmo em ingestões de 2 a 3 g/kg/dia ou mais, nas durações testadas (semanas a poucos meses).
  • Pessoa com DRC diagnosticada (estágios 3 a 5): a restrição proteica é recomendada por diretrizes médicas, sob acompanhamento de nefrologista e nutricionista, com o objetivo de reduzir a progressão da doença.
  • Idoso saudável: o risco mais relevante, segundo a evidência disponível, é o de proteína insuficiente e sarcopenia, não o de excesso de proteína prejudicando o rim.
  • Atleta ou praticante avançado em déficit calórico: a faixa mais alta de proteína (2,3 a 3,1 g/kg/dia) é recomendada justamente para preservar massa magra durante a dieta, dentro da faixa já estudada quanto à segurança renal em pessoas saudáveis.

Na prática

  • Se você é saudável e nunca teve diagnóstico de doença renal, não há motivo, baseado na evidência atual, para ter medo de comer proteína dentro das faixas recomendadas para quem treina (1,4 a 2,0 g/kg/dia, podendo chegar a cerca de 2,3 a 3,1 g/kg/dia em fase de déficit calórico).
  • Se você tem doença renal crônica diagnosticada, ou fatores de risco relevantes (diabetes ou hipertensão não controlados, histórico familiar forte de doença renal), a quantidade de proteína é algo a ajustar com acompanhamento médico e nutricional, não por conta própria.
  • Fazer exames de função renal (creatinina e TFG estimada) periodicamente é uma boa prática de saúde geral, independentemente da dieta, mas não é motivo para evitar proteína se os exames estiverem normais.
  • Boa hidratação combina bem com uma dieta mais proteica, já que ajuda o rim a lidar com a maior quantidade de resíduos nitrogenados a excretar.

Perguntas frequentes

Comer muita proteína dá pedra no rim?
A relação entre proteína e cálculos renais (urolitíase) é um tema separado da função renal geral. A evidência disponível aponta que fatores como baixa hidratação, ingestão excessiva de sódio e predisposição individual pesam mais do que a quantidade de proteína isoladamente. Quem já teve cálculo renal deve conversar com um médico sobre os fatores de risco específicos do seu caso.

Proteína em pó (whey) é pior para o rim do que proteína de alimento?
Não há evidência de que a fonte da proteína, whey, frango ou ovo, por exemplo, faça diferença para o rim. O que os estudos avaliam é a quantidade total de proteína ingerida, não a sua origem.

Como saber se meu rim está bem antes de aumentar a proteína?
Exames de rotina, como creatinina sérica e taxa de filtração glomerular estimada (TFG-e), dão uma boa noção da função renal. Quem tem diabetes, hipertensão ou histórico familiar de doença renal deveria conversar com um médico antes de fazer mudanças grandes na dieta.

Dá para perceber hiperfiltração pelos sintomas?
Não. A hiperfiltração adaptativa de um rim saudável não costuma causar sintoma nenhum, ela só aparece em exame de função renal, e mesmo assim dentro da faixa considerada normal. Sintomas de doença renal geralmente só surgem em estágios mais avançados, o que reforça a importância do exame de rotina em vez de tentar “sentir” se o rim está bem.

Glossário rápido

  • TFG (taxa de filtração glomerular): mede quanto sangue os rins conseguem filtrar por minuto, o principal indicador usado para avaliar a função renal.
  • Hiperfiltração: aumento da TFG em resposta a uma carga maior de trabalho, como mais proteína na dieta. Pode ser uma adaptação normal, em rim saudável, ou parte de um processo patológico, em rim já comprometido.
  • Doença renal crônica (DRC): perda progressiva e geralmente irreversível da função renal, classificada em estágios de 1 (leve) a 5 (falência renal).
  • Feedback tubuloglomerular: mecanismo pelo qual o rim ajusta sua taxa de filtração com base na concentração de sódio e cloreto que chega a uma região específica do néfron, chamada mácula densa.
  • Creatinina: substância medida no sangue e usada, junto com outros dados como idade e sexo, para estimar a TFG.

Referências

  • Devries MC et al. Changes in Kidney Function Do Not Differ between Healthy Adults Consuming Higher- Compared with Lower- or Normal-Protein Diets: A Systematic Review and Meta-Analysis. J Nutr, 2018.
  • A Systematic Review of Renal Health in Healthy Individuals Associated with Protein Intake above the US Recommended Daily Allowance in Randomized Controlled Trials and Observational Studies, 2018.
  • International Society of Sports Nutrition Position Stand: protein and exercise (Jäger et al., 2017).
  • KDOQI Clinical Practice Guideline for Nutrition in CKD: 2020 Update.
  • Association Between Dietary Protein Intake and Kidney Function in Community-Dwelling Older Adults: A Systematic Review. Nutrition Reviews, 2024.

Por Hallen Lopes