Quem já teve câncer de pele pode tomar testosterona? O que a ciência diz

A dúvida é comum em consultórios de endocrinologia e em grupos de treino: homens que já enfrentaram um câncer de pele, principalmente o melanoma, podem repor testosterona depois? A pergunta ganhou força nos últimos anos com o aumento de diagnósticos de baixa testosterona e a popularização da terapia de reposição hormonal (TRT) justamente na faixa etária em que o melanoma se torna mais comum, a partir dos 40 e poucos anos.

À primeira vista, parece uma pergunta que merece um sim ou não direto. Não é assim. A resposta passa por biologia celular, epidemiologia e, principalmente, pelos limites do que a ciência já conseguiu provar até hoje. Este artigo não substitui uma avaliação médica individual. Ele explica o que os estudos mostram, o que ainda é incerto, e por que essa é uma decisão que precisa ser tomada em conjunto com um oncologista ou dermatologista, não sozinho e não por conta própria.

O que as diretrizes oficiais realmente contraindicam

A principal diretriz clínica sobre reposição de testosterona, publicada pela Endocrine Society no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, lista contraindicações formais e específicas: câncer de próstata e câncer de mama em homens. Esses dois tipos são classificados como hormônio dependentes, ou seja, crescem sob estímulo direto de hormônios sexuais, e por isso a reposição de testosterona é desaconselhada nesses casos.

O melanoma e os outros tipos de câncer de pele não aparecem nessa lista de contraindicações formais. Isso costuma ser interpretado, de forma apressada, como um sinal verde. Não é. Ausência de contraindicação formal significa que a ciência ainda não acumulou evidência direta suficiente para proibir ou liberar com segurança, não que o risco foi descartado. É uma lacuna de conhecimento, não uma resposta.

O que a epidemiologia mostra: o estudo do UK Biobank

O achado mais relevante disponível vem de um estudo prospectivo conduzido por pesquisadores da Universidade de Oxford com dados do UK Biobank, envolvendo mais de 182 mil homens e 122 mil mulheres na pós-menopausa, entre 40 e 69 anos. Os pesquisadores mediram os níveis hormonais no sangue dos participantes e depois acompanharam quem desenvolveu câncer ao longo dos anos seguintes.

O resultado, entre os homens, é que níveis mais altos de testosterona livre no sangue estiveram associados a um risco maior de desenvolver melanoma. É um estudo observacional prospectivo, um nível de evidência sólido dentro da epidemiologia, mas abaixo de um ensaio clínico randomizado. Ele mostra associação estatística, não prova causa e efeito. E mede testosterona produzida naturalmente pelo corpo, não o efeito específico de repor testosterona por meio de tratamento médico em quem já teve câncer.

O mecanismo biológico: por que a hipótese faz sentido

Pesquisa de laboratório publicada na revista Nature Communications em 2024 identificou um mecanismo celular concreto: quando o receptor de andrógeno (a proteína que recebe o sinal da testosterona dentro da célula) é ativado, ele aumenta a produção de uma enzima chamada FUT4 nas células de melanoma. Essa enzima modifica uma molécula de adesão celular, a L1CAM, e essa modificação facilita a capacidade das células tumorais de se soltar, invadir tecido vizinho e formar metástases.

Outros estudos mostram ainda que a atividade do receptor de andrógeno está ligada à resistência de células de melanoma a medicamentos-alvo usados no tratamento da doença, como os inibidores de BRAF. Ou seja, existe uma via biológica plausível conectando o sinal hormonal da testosterona ao comportamento mais agressivo do melanoma em laboratório. Isso explica por que a hipótese é levada a sério pela comunidade científica, mesmo sem prova direta em humanos tratados com TRT.

A pista das diferenças entre homens e mulheres

A incidência de melanoma muda de forma curiosa conforme idade e sexo. Em mulheres jovens, entre 20 e 24 anos, a incidência é maior do que em homens da mesma idade. A partir dos 44 anos, esse padrão se inverte e os homens passam a apresentar mais casos. Essa mudança acontece justamente na fase da vida em que os níveis hormonais de homens e mulheres se alteram de forma mais acentuada.

Além da incidência, o comportamento do tumor também parece diferir entre os sexos: mulheres com melanoma tendem a ter desfechos melhores que homens, e estudos apontam um microambiente tumoral mais favorável à resposta imunológica nelas, inclusive com melhor resposta a imunoterapias em modelos animais. Esse conjunto de achados reforça que hormônios sexuais participam de alguma forma na biologia do melanoma, mas de um jeito complexo, não numa relação simples de mais testosterona igual a mais risco em qualquer contexto.

O que ainda não sabemos: a lacuna real

Até o momento não existe nenhum ensaio clínico randomizado testando especificamente a reposição de testosterona em sobreviventes de melanoma e sua taxa de recidiva. Toda a evidência disponível hoje vem de duas fontes: estudos observacionais sobre níveis naturais de testosterona no sangue, como o do UK Biobank, ou estudos de laboratório sobre o mecanismo celular do receptor de andrógeno.

Isso é uma lacuna real da ciência, não uma opinião deste artigo. Não existe hoje um estudo que acompanhe um grupo de homens com histórico de melanoma, divida entre quem fez e quem não fez TRT, e meça a taxa de recidiva depois de alguns anos. Enquanto esse tipo de estudo não existir, qualquer resposta definitiva sobre segurança seria uma afirmação maior do que a evidência permite sustentar.

Comparando cenários diferentes

Homem sem histórico de câncer de pele: as diretrizes de reposição de testosterona se aplicam normalmente, sem restrição relacionada a câncer de pele. A recomendação geral continua sendo acompanhamento dermatológico de rotina, ligado principalmente à exposição solar acumulada ao longo da vida, não ao uso de TRT.

Histórico de melanoma tratado precocemente, há muitos anos, baixo risco de recidiva: a decisão tende a ser mais flexível, mas ainda depende da avaliação individual do oncologista sobre o estadiamento original e o tempo livre de doença. Não existe um número de anos que torne o caso automaticamente seguro.

Melanoma avançado, tratamento ativo ou alto risco de recidiva: a cautela é maior e a prioridade é do oncologista responsável pelo caso. Vale notar que pacientes em imunoterapia para melanoma frequentemente desenvolvem baixa testosterona como efeito colateral do próprio tratamento, o que é uma questão separada da discussão sobre repor testosterona e risco de recidiva.

Câncer de pele não melanoma (basocelular ou espinocelular): a evidência de ligação hormonal é ainda mais escassa nesses tipos. A grande maioria da pesquisa sobre testosterona e câncer de pele até hoje foca no melanoma, então extrapolar diretamente para os tipos não melanoma não é sustentado pelos dados disponíveis.

Na prática

  • Se você já teve câncer de pele e está considerando TRT, converse com o oncologista ou dermatologista que acompanhou seu caso antes de qualquer decisão.
  • Leve o histórico completo para a conversa: tipo de câncer, estadiamento, tratamento realizado e tempo de remissão. Isso muda a análise de risco.
  • Desconfie de clínicas de reposição hormonal que não perguntam sobre histórico oncológico antes de prescrever.
  • Se a reposição for liberada pelo médico, é razoável esperar um acompanhamento dermatológico mais frequente que o padrão, como forma de monitoramento preventivo.

Perguntas frequentes

Testosterona causa câncer de pele?
Não existe evidência de que a testosterona por si só cause melanoma. O que existe é uma associação entre níveis mais altos de testosterona no sangue e maior risco e possivelmente maior agressividade do tumor, além de um mecanismo celular plausível em laboratório.

Quem nunca teve câncer de pele deve se preocupar em fazer TRT?
As diretrizes atuais não trazem essa preocupação como contraindicação. A prioridade nesse caso continua sendo a triagem dermatológica de rotina, ligada à exposição solar, independentemente do uso de TRT.

Melanoma removido há dez anos ainda é motivo de cautela?
Depende do estadiamento original e do risco de recidiva avaliado pelo oncologista. Não existe uma resposta genérica que sirva para todos os casos.

Existe alguma forma de TRT considerada mais segura para quem teve câncer de pele?
Não há dados específicos comparando formas de aplicação, como gel ou injeção, quanto a esse risco em particular.

Por que médicos hesitam mesmo sem contraindicação formal na diretriz?
Porque ausência de contraindicação formal não é o mesmo que ausência de risco. A hesitação vem de um mecanismo biológico plausível e de uma associação epidemiológica observada, mesmo sem o estudo definitivo que faltaria para fechar a questão.

Glossário rápido

  • Melanoma: tipo mais agressivo de câncer de pele, originado nos melanócitos, as células que produzem a pigmentação da pele.
  • Receptor de andrógeno (AR): proteína dentro da célula que se liga a hormônios como a testosterona e ativa genes ligados a crescimento e comportamento celular.
  • TRT (Terapia de Reposição de Testosterona): tratamento médico para elevar os níveis de testosterona em homens com hipogonadismo diagnosticado.
  • Hipogonadismo: condição clínica em que o corpo produz testosterona insuficiente, causando sintomas como fadiga, queda de libido e perda de massa muscular.
  • Estudo observacional prospectivo: tipo de estudo que acompanha um grupo de pessoas ao longo do tempo sem intervenção direta do pesquisador, medindo associações entre fatores e desfechos, não relações de causa e efeito.

Referências

  • Watts, E. L. et al. Testosterone, sex hormone-binding globulin and risk of cancer: prospective analysis in UK Biobank. University of Oxford, Cancer Epidemiology Unit.
  • Endocrine Society. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2018.
  • Androgen drives melanoma invasiveness and metastatic spread by inducing tumorigenic fucosylation. Nature Communications, 2024.
  • Androgen receptor is a determinant of melanoma targeted drug resistance. Nature Communications, 2023.
  • Sex and Gender Disparities in Melanoma. Cancers (Basel), revisão de literatura.
  • Testosterone deficiency in men receiving immunotherapy for malignant melanoma. Oncotarget.

Por Hallen Lopes