Retatrutida: a caneta que todo mundo quer

Depois do Ozempic e do Mounjaro, um novo nome tomou conta das buscas: retatrutida. Segundo reportagens que acompanharam os dados do Google, o interesse pelo termo no Brasil cresceu cerca de 2.700% em um ano. Junto com a curiosidade, veio um mercado clandestino: frascos vendidos pela internet, apreensões em aeroportos e um alerta oficial da Anvisa em julho de 2026.

O motivo de tanto barulho é real: os resultados de perda de peso nos estudos são os maiores já vistos com um medicamento para obesidade. Mas há uma informação que muitas vezes some no meio da empolgação: a retatrutida ainda é um medicamento experimental, sem aprovação em nenhum país do mundo. Este artigo reúne o que se sabe, o que ainda falta saber e por que comprar "retatrutida" hoje é uma aposta de alto risco.

O que é a retatrutida e como ela age

A retatrutida (código LY3437943) é uma molécula injetável, aplicada uma vez por semana, desenvolvida pela farmacêutica Eli Lilly. Ela é chamada de "agonista triplo" porque ativa três receptores hormonais ao mesmo tempo:

  • GLP-1: o mesmo alvo da semaglutida (Ozempic/Wegovy). Aumenta a saciedade no cérebro, retarda o esvaziamento do estômago e ajuda no controle da glicose.
  • GIP: alvo adicional da tirzepatida (Mounjaro). Potencializa o efeito sobre o apetite e o metabolismo da glicose e da gordura.
  • Glucagon: a grande novidade. A ativação do receptor de glucagon tende a aumentar o gasto energético e a queima de gordura, especialmente no fígado.

A lógica é que, enquanto GLP-1 e GIP agem principalmente reduzindo a quantidade de comida ingerida, o componente de glucagon atua também do lado do "gasto". Por isso a retatrutida é vista como uma possível nova geração desses medicamentos. Uma ressalva importante: quanto cada componente contribui para o resultado final em humanos ainda está sendo estudado.

O que mostrou o estudo de fase 2

Os primeiros dados robustos vieram em 2023, publicados no New England Journal of Medicine (Jastreboff e colegas). O ensaio clínico de fase 2 incluiu 338 adultos com obesidade ou sobrepeso, sem diabetes, acompanhados por 48 semanas. Na dose mais alta (12 mg), a perda média de peso foi de 24,2%, contra cerca de 2% no grupo placebo.

Um subestudo do mesmo programa, focado em gordura no fígado, mostrou reduções expressivas da gordura hepática, com a maioria dos participantes nas doses mais altas atingindo níveis considerados normais, o que fez da doença hepática gordurosa associada ao metabolismo (MASLD) uma das áreas mais promissoras de pesquisa da molécula.

O que mostrou a fase 3 (TRIUMPH-1)

Em maio de 2026, a Lilly divulgou os primeiros resultados da fase 3, o estudo TRIUMPH-1. Foram 2.339 adultos com obesidade ou sobrepeso com pelo menos uma doença relacionada ao peso, sem diabetes, randomizados para receber 4 mg, 9 mg, 12 mg de retatrutida ou placebo, por 80 semanas. O peso médio inicial era de 112,7 kg (IMC médio de 40).

  • 4 mg: perda média de 19,0% do peso corporal.
  • 9 mg: perda média de 25,9%.
  • 12 mg: perda média de 28,3% (cerca de 32 kg). 45,3% dos participantes perderam 30% ou mais do peso.
  • Placebo: perda média de 2,2%.

Em uma extensão até 104 semanas, com 532 participantes com IMC inicial a partir de 35, a perda média chegou a 30,3% na dose de 12 mg. Também houve melhora em circunferência abdominal, colesterol não-HDL, triglicerídeos, pressão arterial sistólica e marcadores inflamatórios.

Uma observação técnica importante: esses números são da chamada "estimativa de eficácia", que considera o efeito se todos tivessem seguido o tratamento. Na análise que inclui quem parou o remédio ou mudou de tratamento ("regime de tratamento"), a perda com 12 mg foi de 25,0% em 80 semanas, ainda muito alta, mas um pouco menor. Até a data deste artigo, esses resultados vinham de comunicado da empresa e apresentações em congresso; a publicação completa revisada por pares é o próximo passo esperado.

Efeitos colaterais conhecidos até agora

Os efeitos adversos mais comuns foram gastrointestinais e aumentaram com a dose. Na dose de 12 mg do TRIUMPH-1: náusea em 42,4% (contra 14,8% no placebo), diarreia em 32,0%, constipação em 26,1% e vômitos em 25,3%. Também apareceram com mais frequência a disestesia, sensações alteradas na pele, como formigamento ou sensibilidade (12,5% contra 0,9% no placebo), e infecções urinárias.

Cerca de 11,3% dos participantes na dose de 12 mg abandonaram o tratamento por efeitos adversos, contra 4,9% no placebo. Na dose de 4 mg, o abandono foi semelhante ao placebo (4,1%).

No estudo de fase 2, também foi observado um aumento da frequência cardíaca dependente da dose, que tendeu a diminuir ao longo do tempo. Os estudos em andamento sobre desfechos cardiovasculares e renais (como o TRIUMPH-Outcomes) é que vão mostrar se o balanço entre benefício e risco cardiovascular é favorável no longo prazo.

O que ainda NÃO se sabe

  • Segurança a longo prazo: os dados vão até cerca de 2 anos. Efeitos raros só costumam aparecer quando milhões de pessoas usam um medicamento por muitos anos.
  • Composição da perda de peso: quanto da perda é gordura e quanto é músculo ainda precisa ser detalhado, uma questão importante, como já discutimos aqui no Cometa sobre a semaglutida e a tirzepatida.
  • O que acontece ao parar: com outros remédios da mesma família, a maior parte do peso costuma voltar após a suspensão. É provável que algo semelhante aconteça, mas ainda não há dados publicados para a retatrutida.
  • Efeito em desfechos duros: ainda não se sabe se reduz infarto, AVC ou mortalidade, como já foi demonstrado para a semaglutida no estudo SELECT.
  • Resultados em pessoas com diabetes e doença cardiovascular: os estudos TRIUMPH-2 e TRIUMPH-3 ainda estavam com resultados pendentes.

Situação regulatória: quando chega ao Brasil?

Até a data deste artigo, a retatrutida não está aprovada pela FDA (EUA), pela EMA (Europa), nem pela Anvisa. Segundo a própria Lilly, a molécula só está legalmente disponível para participantes de seus estudos clínicos. Reportagens especializadas indicam que a empresa planejava submeter o pedido de aprovação nos Estados Unidos no início de 2027, o que, considerando os prazos normais de análise, coloca uma eventual aprovação americana no fim de 2027 e chegada ao mercado não antes de 2028. No Brasil, o processo na Anvisa ainda não tinha sido iniciado.

O perigo da "retatrutida" vendida hoje

Mesmo sem aprovação em lugar nenhum, produtos rotulados como retatrutida vêm sendo oferecidos na internet e apreendidos nas fronteiras. Em julho de 2026, a Anvisa emitiu alerta reforçando que o produto não está disponível para venda em nenhum lugar do mundo. Na mesma época, a Polícia Federal apreendeu frascos com retatrutida na bagagem de uma passageira no Aeroporto do Galeão.

O problema vai além da ilegalidade. Um produto clandestino pode ter dose diferente da anunciada, conter impurezas, contaminação por microrganismos, outras substâncias, ou nem conter o princípio ativo. Muitos são vendidos como pó liofilizado "para pesquisa", que a pessoa precisa diluir sozinha, multiplicando o risco de erro de dose e infecção. E, sem acompanhamento médico, complicações como pancreatite, cálculos na vesícula e desidratação grave podem passar despercebidas.

Vale repetir: os resultados impressionantes dos estudos foram obtidos com produto fabricado sob controle rigoroso, em doses escalonadas aos poucos, com monitoramento médico frequente. Nada disso existe no frasco comprado pela internet.

Na prática

  • Hoje, a única forma legal e segura de usar retatrutida é participando de um estudo clínico oficial.
  • Não compre nada vendido como retatrutida: não há produto legítimo à venda em nenhum país.
  • Se você tem obesidade e quer tratamento medicamentoso, converse com um médico sobre as opções já aprovadas pela Anvisa, que têm anos de dados de segurança.
  • Qualquer tratamento com essa classe de remédios deve vir acompanhado de treino de força e ingestão adequada de proteína para proteger a massa muscular.
  • Desconfie de anúncios com "resultados garantidos", venda sem receita ou envio de frascos para diluir em casa.

Perguntas frequentes

A retatrutida já é vendida no Brasil?

Não legalmente. Ela não tem registro na Anvisa nem aprovação em nenhum outro país. Qualquer produto vendido hoje como retatrutida é irregular.

Qual a diferença entre retatrutida, Ozempic e Mounjaro?

A semaglutida (Ozempic/Wegovy) age no receptor GLP-1; a tirzepatida (Mounjaro) age em GLP-1 e GIP; a retatrutida age em GLP-1, GIP e glucagon. Nos estudos, a retatrutida produziu perdas de peso médias maiores, mas ainda não houve comparação direta publicada com as outras em obesidade.

Quanto peso se perde com a retatrutida?

No estudo de fase 3, a perda média foi de 19% a 28,3% do peso em 80 semanas, dependendo da dose, chegando a 30,3% em 104 semanas na extensão do estudo. Resultados individuais variam.

Quais os principais efeitos colaterais?

Náusea, diarreia, constipação e vômitos, mais frequentes nas doses altas. Também foram relatadas alterações de sensibilidade na pele (disestesia) e infecções urinárias.

Quando a retatrutida deve ser aprovada?

A expectativa divulgada é de pedido de aprovação nos EUA no início de 2027. No Brasil, depende de pedido à Anvisa, que ainda não havia sido feito até a data deste artigo.

Glossário rápido

Agonista: substância que ativa um receptor, imitando a ação de um hormônio natural.

GLP-1, GIP e glucagon: hormônios que regulam apetite, glicose e uso de energia pelo corpo.

Ensaio de fase 2 e fase 3: etapas de testes em humanos; a fase 3 envolve milhares de pessoas e é a base para o pedido de aprovação.

Placebo: substância sem efeito ativo usada como comparação nos estudos.

MASLD: doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, o novo nome da "gordura no fígado".

IMC: índice de massa corporal, peso dividido pela altura ao quadrado.

Referências

  1. Eli Lilly and Company. Lilly's triple agonist, retatrutide, delivered powerful weight loss in pivotal Phase 3 obesity trial (TRIUMPH-1). Comunicado, 21 de maio de 2026. https://investor.lilly.com/news-releases/news-release-details/lillys-triple-agonist-retatrutide-delivered-powerful-weight-loss
  2. Jastreboff AM, et al. Triple-Hormone-Receptor Agonist Retatrutide for Obesity, A Phase 2 Trial. New England Journal of Medicine, 2023.
  3. ClinicalTrials.gov. A Study of Retatrutide (LY3437943) in Participants Who Have Obesity or Overweight (TRIUMPH-1, NCT05929066). https://clinicaltrials.gov/study/NCT05929066
  4. ClinicalTrials.gov. The Effect of Retatrutide Once Weekly on Cardiovascular Outcomes and Kidney Outcomes in Adults Living With Obesity (TRIUMPH-Outcomes). https://clinicaltrials.gov/study/NCT06383390
  5. VIVA. Anvisa alerta para venda ilegal de retatrutida, medicamento ainda em testes, 27 de julho de 2026. https://viva.com.br/saude-e-bem-estar/anvisa-alerta-para-venda-ilegal-de-retatrutida-medicamento-ainda-em-testes.html

Por Hallen Lopes